sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Carlos Chagas coloca a mídia contra a parede

Coluna de Carlos Chagas na Tribuna da Imprensa:


Coisas que incomodam


BRASÍLIA - Da novela "Coisas que incomodam", que apresentaremos de quando em quando, em capítulos, sobressaem hoje certas práticas peculiares à mídia moderna. Práticas execráveis, que, além de incomodar, irritam. Tome-se as edições de fim de semana de alguns jornalões. Na manhã de domingo vamos à banca, pedimos o matutino de nossa preferência e, chegando em casa, verificamos que a primeira página é fajuta, no todo ou em parte.

Em vez das notícias e das chamadas, encontramos inteiro ou pela metade um encarte anunciando sabe-se lá o quê. A reação da maioria dos leitores é arrancar aquele corpo estranho de um só golpe, amassá-lo e deitá-lo no lixo, mas que ele incomoda, não há que duvidar. Além de contribuir para sujarmos um pouco mais as mãos, no sentido literal, esse expediente faz-nos perder tempo e, na maioria dos casos, contribui para não comprarmos o que vai nele anunciado.

Para ficar na imprensa: aos domingos, compramos também uma revista semanal. Não se discutem sua linha editorial, suas idiossincrasias, suas meias verdades e suas agressões. Nas democracias, liberdade de imprensa significa cada um poder adquirir o veículo que melhor lhe agrade. O incômodo não é esse, mas o de verificarmos que, cada semana mais, some o espaço para material de redação e entra publicidade.

Nada contra ela, mas se vamos atrás de resenhas, reportagens, artigos e comentários semanais e encontramos cada vez mais propaganda, sentimo-nos lesados. Em especial quando fica evidente que determinado material apresentado como jornalístico exprime, no fundo, faturamento, ou seja, parcialidade para agradar o cliente, desprezando ou iludindo o leitor.

Irritados com os meios de comunicação tradicionais, vamos para a frente da televisão. Afinal, é domingo. O volume de publicidade chega a assustar, mas, como estamos atrás de notícias, entretenimento e serviços, agüentamos firme. Só que ninguém suporta, a cada intervalo na programação, ter de acionar as teclas dos controles remotos para diminuir o áudio na hora em que entram os anúncios, e aumentá-lo quando retorna o programa preferido.

Pode tratar-se de uma técnica de marketing, mas marketing criminoso, o fato de as emissoras subirem o volume da propaganda cada vez que ela aparece, como se o telespectador fosse bobo e comprasse mais em razão dos decibéis estabelecidos em torno dos produtos anunciados. Já houve uma lei proibindo essa lambança, mas, pelo jeito, a lei não pegou.

A tarde vem chegando. No almoço com a família recomendamos à cozinheira para não utilizar nada do que a televisão anunciou aos berros durante a semana inteira. Vamos assistir, primeiro, algumas partidas de futebol transmitidas da Inglaterra, Alemanha, Espanha ou Itália. É hora de a pressão sangüínea aumentar por conta de mais uma irritação.

Viagens à Europa custam caro para as empresas, por isso os locutores transmitem daqui mesmo, olhando como nós nas telinhas. Como não quiseram ter trabalho de conhecer os jogadores ou, ao menos, de prestar atenção nos números colocados nas respectivas camisas, narram tudo, menos a partida em questão.

Fonte:Tribuna da Imprensa Online

http://www.tribuna.inf.br/coluna.asp?coluna=chagas


quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Pesquisa: internet passa jornal na preferência dos leitores

Terça-feira, dia 13 de Novembro de 2007 às 15:10hs

A nova pesquisa de Opinião Pública, realizada pelo Instituto Sensus, aponta que a Internet já passou o jornal impresso e a revista na preferência dos leitores. Questionados sobre qual o meio preferido para se informar, 7,1% apontaram a internet, contra 6,4% que citaram o jornal. Depôs vêm a revista e outros meios. A televisão teve preferência de 76,1% dos entrevistados, e o rádio de 8,1%.

Essa foi a rodada 90 da pesquisa, realizada entre 8 e 12 de outubro, por amostragem. Foram realizadas duas mil entrevistas em cinco regiões do País, abrangendo 24 Estados e 136 municípios. A margem de confiança é de 95% e a de erro de 3% para cima ou para baixo.

Fonte:Aquidauana News

http://www.aquidauananews.com/index.php?action=news_view&news_id=116904

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

As lições do Castelinho - Carlos Chagas (Tribuna da Imprensa)

BRASÍLIA - Desde ontem que um precioso material se encontra disponível na Internet, no site WWW.carloscastellobranco.com.br. Trata-se não apenas da reprodução das 7.446 colunas que o Castelinho escreveu para a "Tribuna da Imprensa" e, em especial, para o "Jornal do Brasil", entre 1962 e 1993. Lá está toda a vida literária daquele que no auge da criatividade ingressou na Academia Brasileira de Letras. Crônicas, contos e romances de sua autoria podem ser pesquisados, num trabalho desenvolvido por sua filha, Luciana.

Pode parecer lugar-comum, mas é verdade: não se entenderá a História do Brasil recente sem a leitura das colunas do Castello. Ele foi "o Papa" do jornalismo político, que reverenciamos até hoje, nós, meros párocos de aldeia. Deixou marcas profundas como analista, observador, comentarista e repórter.

Serviu para desmistificar esse dogma modernoso de que o jornalista tem que ser isento. Isento coisa nenhuma! Percebemos, pelo exemplo do Castello, que não somos robôs. Jamais máquinas frias de produzir informações, daquelas em que comprime a tecla do "lead" e sai um texto apresentando "o que, quem, quando, onde e porque". Temos alma.

Sentimentos. Até paixões e idiossincrasias. Preferências e visões distintas de cada episódio que relatamos. Basta-nos, como bastou ao Castello, dispor das condições necessárias para transmitir ao leitor, ao ouvinte e ao telespectador o conjunto de cada fato. Suas versões principais. Cada um que tire suas conclusões, porque primeiro tiramos a nossa.

O mestre de todos nós adorava os cardeais da velha UDN. Possuía razões de sobra para cultivá-los, salvo raras exceções. Começou a trabalhar na imprensa nos idos da ditadura de 1937. É claro que começou tomando partido, obviamente contra aquele regime que censurava e distorcia a notícia. Não lhe faltaram motivos para rejeitar o populismo, tanto quanto os governos de força. Coisa que não impediu muita gente de rotulá-lo de comunista.

Seu talento despertava amuos e inveja dos diretores dos jornais onde escreveu. Trata-se de um dos postulados do jornalismo, raras vezes revelando um dono que também é jornalista. Eles se ressentem da falta de condições para o exercício da profissão, irritam-se diante do sucesso de seus subordinados. Uns tentam pontificar, produzindo bobagens. Outros são mais diretos e repetem o chavão do "quem manda aqui sou eu!" Geralmente mandam mal.

Castelo escreveu três cartas de demissão a Nascimento Brito, diretor do "Jornal do Brasil", que felizmente as devolveu. Eram intermitentes os sentimentos do "dr. Brito", alternando-se a admiração pelas qualidades do colaborador com as dificuldades de dedilhar a "Remington" como Castello fazia.

Outra qualidade do saudoso amigo era não se deixar influenciar por um livro, uma tendência ou uma ideologia. Abria o leque, ferino na crítica tanto quanto compreensivo diante das intenções que percebia. Sarcástico e irônico, também acreditava. Em quê? Na dignidade da profissão que exercia, na importância de transmitir à sociedade tudo o que se passava nela de bom e de mau, de certo ou de errado, de ódio ou de amor. Suas colunas revelavam inflexibilidade e tolerância, mostrando ser possível conciliar os contrários.

Em 1966, quando as tenazes da ditadura apertavam a imprensa, um grupo de jornalistas políticos militando no Rio decidiu abrir espaços para o noticiário que desaparecia. Criamos o "Clube dos Repórteres Políticos". De quinze em quinze dias oferecíamos um almoço a algum parlamentar, ministro, juiz - enfim, a alguém em evidência. Castello já morava em Brasília, mas raramente perdia uma de nossas reuniões. Não faltava às tertúlias no restaurante da "Casa da Suíça".

Brasília, porém, era cada vez mais o centro das decisões políticas. Acabei acampando por aqui, em definitivo, em 1972, para dirigir a sucursal de "O Estado de S. Paulo". Castelo era o diretor do "Jornal do Brasil". Estreitamos relações, era raro dia em que não nos encontrávamos, menos no Congresso, que ele não gostava de freqüentar porque era logo seguido por um monte de jovens repórteres: "Se o Castello vai para o gabinete deste ou daquele deputado ou senador, para conversar, é porque a notícia está lá. Vamos também!"

Ele não gostava e cada vez mais marcava encontros fora da Câmara ou do Senado, num restaurante, num bar ou na própria residência ou de um colega. Dispunha de prodigiosa memória, daquelas que só o tempo cultiva. Era capaz de conversar duas ou três horas com um político e, no dia seguinte, reproduzir toda a conversa.

Tratava-se de tempos em que não dispúnhamos dessa diabólica parafernália eletrônica, gravadores do tamanho de caixas de fósforo, tantas vezes responsáveis pelo fracasso de jornalistas mais jovens. Sabendo que a maquininha captava tudo, não prestavam atenção no que o entrevistado dizia. Desligavam-se, só para ter trabalho duplo na hora da degravação...

Castello se foi, uma pena para todos nós, que iremos também. Mas ficaram suas lições, agora mais acessíveis pelo esforço de sua filha.

Fonte: Tribuna da Imprensa Online

http://www.tribuna.inf.br/coluna.asp?coluna=chagas